Os GPs “em desenvolvimento”

Uma polêmica recente trata da realização de corridas em países em desenvolvimento. A última novidade é o GP do Azerbaijão, estreando em 2016. Com a Europa em crise, Ecclestone passou a pôr países da Ásia no calendário, além de alguns outros países “do Sul”. Os torcedores são poucos, mas gastam muito, e é isso que importa. Mesmo o circuito não agradando tanto pilotos quanto fãs, vale a pena para o “dono da Fórmula 1” se houver investimento e razoáveis instalações.

Esporte globalizado, não é de se estranhar que cada vez mais países participem da categoria.  E a questão não se restringe apenas às pistas, mas a todos os envolvidos: é fácil notar em uma equipe, por exemplo, pilotos de duas  nacionalidades diferentes, que correm por uma equipe de uma terceira nacionalidade, com carros que possuem motores de um quarto país. É protocolo no pódio tocar o hino do país do piloto vencedor, mas além disso, toca-se
também o hino do país da equipe. Com a chegada de novos países no calendário, novas questões surgem, como a política de cada um, seus problemas sociais, conflitos externos, entre outros. O melhor exemplo a ser citado aqui é o
Bahrein: primeiro país do Golfo Pérsico a comercializar petróleo, possui alto IDH e chega até ser liberal em comparação com seus vizinhos (liberdade religiosa, mulheres podem dirigir). Entretanto, possui altas taxas de
desemprego e inflação, além do conflito islâmico entre sunitas e xiitas. Em 2011, ano que estourou a chamada Primavera Árabe, o GP teve de ser cancelado devido à instabilidade do país. Em 2012, a situação ainda era complicada e houve diversos protestos de civis contra a realização do evento, devido aos problemas financeiros da nação. Bernie Ecclestone, no entanto, não se preocupou e deixou sua famosa declaração de que esportes não deviam se envolver com política.

Outro GP que até saiu do calendário por questões financeiras foi o da Turquia, que disse que só voltaria a sediar se os
investimentos fossem privados. Outros países que estão ou estavam no calendário são Cingapura, que atrai por seus belos edifícios, poderosa economia, alto desenvolvimento tecnológico, aliados a um governo autoritário, onde a corrida é realizada a noite (primeira do tipo); Coreia do Sul, que também apresenta forte desenvolvimento tecnológico e é respeitada pela política ocidental, entretanto, a iminência de guerra com a Coreia do Norte provocou um susto em 2010, quando pouco antes da corrida os militares de Kim Jong-Il afundaram um navio de guerra sul-coreano, matando 46 tripulantes; e Índia, com seus grandes problemas sociais e demográficos, cidades sujas e o conflito com a Caxemira, realizou GPs entre 2011 e 2013, muito por influência de Vijay Mallya, empresário e milionário indiano dono da equipe Force India.

Um famoso GP que entrou no calendário em 2009 e desde então faz grande sucesso é o de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Seu traçado não muito favorável à grandes corridas não tira o brilho do complexo que foi o mais caro já construído. A pista situa-se no porto da ilha de Yas, ganha belas iluminações a noite e possui uma das melhores infraestruturas de todo o campeonato. Abriga ainda próximo um parque de diversões temático da Ferrari, além de um parque aquático. A riqueza petrolífera, no entanto, mantém cidades com péssimas condições de vida para seus habitantes, tornando a maior parte do público da Fórmula 1 estrangeira. E no pódio, nada de champagne com álcool. Há ainda o caso russo, que na atual gestão do país merece um artigo a parte.

A novidade Azerbaijão, que está no leste europeu e sudoeste asiático, possui IDH relativamente alto em comparação aos vizinhos. Como muitos outros casos de países emergentes, o bom desenvolvimento econômico divide atenção
com alta corrupção. Há também muita extração de petróleo, inclusive nos arredores de Baku, capital e cidade mais populosa, que sediará o GP. O público será provavelmente um dos menores da F1, a princípio, pois a rede hoteleira da cidade já divulgou suas limitações. A corrida de rua espera cerca de 28 mil pessoas. A promoção da cidade ocorre
pelos investimentos privados, apoiada pelo governo. O retorno do GP mexicano em 2015 ao calendário levou aproximadamente 135 mil pessoas ao autódromo.

Lembrando que a data do GP do Azerbaijão coincide com a corrida das 24 Horas de Le Mans. É esperar para ver.