A era Bernie Ecclestone

por Jaqueline Trevisan Pigatto

“Mas quem, entre eles, lá atrás nos anos de 1970, teria acreditado tanto no produto a ponto de enfrentar donos de autódromos, FIA, governos de cada país, cancelar GPs tradicionais, trocar a Europa por outros mundos onde hoje está o dinheiro e, com isso, fazer a Fórmula 1 chegar tão alto? Os métodos? Bom, sempre variaram de acordo com o momento. Vivendo dentro desse mundo há 38 anos, eu assisti a inúmeras demonstrações do poder ilimitado desse homem.”

Reginaldo Leme no livro Não Sou Um Anjo, de Tom Bower.

Photo by Mark Thompson/Getty Images

A temporada 2017 da F1 prometia várias mudanças, e ainda promete. Mas muitos não esperavam pela maior delas: Bernie Ecclestone não está mais no comando da categoria que ele mesmo transformou ao longo de décadas. Ao menos está fora oficialmente, já que não posso deixar de questionar (e imaginar) a influência (e os pitacos) que ele ainda dará no meio mais alto do automobilismo mundial.

No papel, o cargo até então ocupado por Ecclestone agora pertence à Chase Carey, nomeado pela empresa que desde o ano passado vinha comprando os direitos da categoria, a Liberty Media. Dentre as mudanças que a empresa pretende, estão maior presença da F1 nas mídias sociais e uma aproximação com o público estadunidense. Já são estudadas possibilidades de novos circuitos nos Estados Unidos, além do já existente no Texas.

Mas revendo o legado de Ecclestone, a aquisição da F1 pelos novos donos causa certa angústia. O esporte vai melhorar ou piorar? Bernie revolucionou a categoria desde a década de 1970, deixando-a como conhecemos hoje: mundialmente famosa e presente em todos os cantos do globo, cada vez mais luxuosa e prestigiada.

“A maneira que ele tem de controlar várias pessoas muito inteligentes, fazendo com que elas continuem dançando a música que ele toca, é extraordinária.”

Damon Hill

O britânico, desde jovem com uma mente brilhante para negócios, vem de uma família pobre, começou a vender peças de motos e carros, até abrir sua própria loja de vendas de automóveis. Encantado com as corridas, tentou ser piloto, mas um problema de visão não o permitia competir muito bem. Passou a investir então na sua própria equipe, na verdade, comprou a Brabham em 1972. Fundou a FOCA (Formula One Constructors Association) e construiu sua influência e poder nos meios esportivo e político. Negociava com quem fosse preciso, pilotos, mecânicos, equipes e circuitos, para deixar a F1 do jeito que ele queria. Ecclestone presidia a FOM (Formula One Management), empresa que gerencia a categoria com autorização da FIA, e assim consolidou sua gestão no esporte e se tornou um dos maiores empresários do planeta. Cercado de polêmicas e controvérsias, como o fato de não se importar com o cenário político de um país que sedie um GP (caso do Bahrein por exemplo), Ecclestone tem um balanço mais positivo do que negativo na F1. Muitos ficarão aliviados, pilotos e chefes de equipe principalmente… Ecclestone é conhecido por seu temperamento difícil e imprevisível.

Quanto às mudanças imediatas, provavelmente serão poucas. A Liberty Media e os novos dirigentes não podem fazer muito até 2020, quando termina a atual versão do Acordo de Concórdia, um contrato sobre repasse de dinheiro às equipes, um dos principais pontos que a Liberty quer mudar. Deixar a F1 menos cara e mais acessível para o público é sem dúvida um ponto muito interessante a ser trabalhado.

A categoria deve muito à Ecclestone e assim espera-se agora um trabalho de continuidade na gestão da F1.